terça-feira, 15 de dezembro de 2015

A salvação do Rock e os festivais


Discutem sofre a salvação do rock desde os anos 60, quando os Beatles tornaram o seu som mais conceitual, já haviam burburinhos que o rock estava morto. Lembro de uma mitológica entrevista do Mike Patton  (Faith no more) feita pelo Zeca Camargo ainda em tempos de MTV. O entrevistador pergunta sobre a salvação do Rock, e Patton é categórico ao dizer “O Rock já morreu”. Ele disse isso em 91, ano onde o Nevermind do Nirvana explodia, e os Guns n roses eram um dos maiores artistas da época, tanto quanto Michael Jackson ou Madona. Sobre essa ideia de que o rock morreu, ainda existem entrevistas com Raul Seixas em que ele, já nos anos 70, dizia que o rock já estava morto.  

Vendo por esse lado, o Rock já nasceu morto.




Dizer que algo precisa ser salvo remete a ideia que aquilo corre perigo, mas o que corre perigo? O Rock rasgado do Led Zeppelin, o espírito rebelde dos Ramones, o que está em perigo? Penso que esses sons estão presentes em bandas modernas. Jack White ou wolfmothers são tão rock n roll quanto qualquer banda dos anos 70, a já finada banda dos anos 2000, the Libertines tinham integrantes mais malucos do que qualquer Sid Vicious. Por este aspecto, os elementos básicos do rock estão aí sim.


Diziam antes que as gravadoras levavam o rock a morte, estas que por sinal, não atrapalharam no processo criativo dos Beatles, entretanto, essa era a desculpa clássica dos rockeiros pré-internet. As gravadoras morreram, se não morreram, estão em coma, e mesmo assim o rock continuou morto para alguns.

A pergunta não é “Como salvaremos o rock?” ou “Quem salvará o Rock?” a pergunta correta é “O Rock precisa ser salvo?”

O primordial para salvação é que o objeto queira ser salvo. E a quem interessa salvar o rock, salvar de que? Salvar da “popzação”? Ser Pop nunca incomodou o rock, Elvis é um símbolo do mundo pop, então o berço do Rock é muito pop. O Rock está ficando muito coxinha? Bom, os Beatles tocavam de terno e com cabelos perfeitamente penteados, e o baterista do Avenged Sevenfold morreu de overdose, então a teoria do rock ser coxinha é um pouco maluca.

Mas o rock não é mais protagonista? Sim, isso é verdade, a maior banda da atualidade, o Arctic Monkeys, não tem metade da penetração na mídia que o Nirvana teve, entretanto a Adele ou a Lady Gaga também não tem o mesmo alcance da Madona. O Mercado musical está menor, isso não é só pro rock. Hoje a mídia tem um pouco mais de dificuldade de mandar em quem o público gosta, em 2013 ocorreu uma tentativa de se criar o pagode universitário, a industria já estava deslumbrando o possível fim do sertanejo Universitário, o termo Pagode Universitário foi relacionado a grupos como Sorriso Maroto e Revelação, entretanto a massa queria mais sertanejo universitário, e a tentativa da industria falhou miseravelmente.



Credito isso a internet que hoje distribui mais música do que qualquer outro meio já distribuiu na história. Não gosta de sertanejo, não gosta de Rock, sua área é o Reggae? O Soja lota casas de show no Brasil sem nunca ter tocado no rádio massivamente. Pro Rock vale a mesma lógica, acreditem em mim, existem MILHÕES de bandas de rock por aí lançando coisas de todos os estilos.

Então parem de dizer que o rock morreu, o que morreu foi sua vontade de procurar coisas novas. Essa preguiça de procurar coisas novas é representada pela diferença entre o Lollapalooza e o Rock n Rio, o primeiro que até o momento nunca repetiu uma banda, e o segundo que insiste em trazer o Metálica pela milionésima vez. Olha que interessante, qual dos dois festivais tem maior impacto no Brasil? O rock n Rio é claro, pessoas saem de todos os cantos do Brasil para acompanhar o festival, movimento que não ocorre no Lollapalooza. Talvez esses dois festivais já representem bem a resistência ao novo que faz com que muitos digam que o rock morreu.



Então se você abre a boca pra comentar sobre a morte do rock, recomendo procurar a Line Up do Lollapalooza, não só desse ano, procure também as do anos anteriores, você vai ter contato com a vanguarda do rock, garanto, você se surpreenderá com muitas bandas.  

*Texto originalmente postado em Abril de 2015

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Novo Blog

Olá Pessoal!

Alguns de vocês sabem, outros não. Mas estou com um novo blog sobre emagrecimento.
Ta ficando bem legal.

Sexta, a nova segunda entrem lá e confiram.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Filantropia e conto do bom cristão


Não sou muito fã de filantropia, acredito que distribuição de renda, que no fundo quase toda ONG/fundação acaba sendo sobre isso, é função e obrigação dos governos.

Mas a empresa TOM SHOES, como possui lucro, não se trata de uma ONG, me chamou atenção, por ter outro foco, como Blake Mycoskie, criador da empresa, diz em suas palestras, “iniciativas de filantropia que possuem lucro são mais duradouras” o que faz todo sentido e com isso o esquema criado é o “um pra um”, onde a cada sapato vendido pela empresa eles doam um outro sapato, ou seja, o sapato vendido nas lojas já incluem o custo do sapato vendido, do sapado doado e um lucro pra empresa, sem contar os custos de transportes. Em linhas gerais, usando valores hipotéticos, se um sapato custa U$ 30, ele cobraria U$ 70 (30 para um sapato, 30 para outro e 10 de lucro) e uma mesma empresa sem fins filantrópicos venderia por U$ 40 (menos 30 do segundo sapato).

Quando conheci a ideia meu sentimento ficou dividido, trata-se de um pensamento altruísta ou apenas um Marketing para venda de sapatos Alpargatas (que são uma espécie de Bambas sem cadarços). Bom, as coisas nem sempre são pretas ou brancas, existem muitos tons entre essas duas cores, então realmente é possível que seja os dois. Blake como bom americano, é capitalista e quer ganhar dinheiro, não há nada de errado nisso, todos nós trabalhamos para ganhar dinheiro, e ele conseguiu convencer um pequeno grupo de pessoas ligadas a reconstrução de igrejas destruídas pelo furacão Katrina a ceder U$ 1 milhão para a iniciativa, capital que foi necessário para começar as operações, mas é bem claro que não foi somente uma campanha de Marketing similar a diversas empresas como Nike, Adidas e Puma fazem, que visivelmente só querem um desconto no imposto de renda e posar de boazinhas para sociedade. Já que como ele mesmo conta, a ideia veio de um visita a Argentina onde ele descobriu que havia um grupo de crianças que puderam se inscrever na escola por não terem sapatos, o que é uma vergonha para um país como Argentina.


O fato é que não podemos afirmar o que passa na cabeça de Blake Mycoskie ou de qualquer outra pessoa com ideias altruístas, mas sim que o no mínimo ele faz parte do conto do “bom cristão capitalista” e deixo que você que está lendo isso chegue a sua própria conclusão se isso é benéfico ou não ao mundo. 

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A parte não escrita sobre o abandono do bebê em Higienópolis


Notícia cruzou o Brasil: "Polícia detém mãe que abandonou criança em Higienópolis" 

A tocante e comovente reportagem coube em sua capa a linda médica que realizou o atendimento da criança. Entretanto em momento algum, tenta contextualizar a história da tal mãe.

Não coube que essa mãe habitava uma minúscula senzala próxima a área de serviço, também conhecida como "quarto de empregada".

Não coube que ela abandonou o bebê para não perder o emprego.

Não coube o pai.

Não coube que seus patrões ficaram 9 meses sem perceber que ela estava grávida.

Não coube que ela fez o parto sozinha no banheiro de empregada.

Não coube que a única frase dela que o jornal nos deixou que soubéssemos foi: "Fiz por desespero"

Não coube que ela esperou até o bebê fosse achado, enquanto corria para casa antes da patroa.

Não coube a filha de 3 anos, que agora está na senzala quarto de empregada sem a mãe.

Não coube que a mulher tem um filho de 17 anos que mora no nordeste longe da mãe.

Não coube que a poucas quadras dali existe uma clínica de aborto para os ricos de Higienópolis.

Não coube sequer os nomes dos seus senhores patrões.

Não coube que ela foi presa arrastada pela polícia de maneira covarde.

Óbvio, não coube toda a hipocrisia dessa situação toda.

Qualquer semelhança com "Que horas ela volta?" é pura coincidência

segunda-feira, 19 de outubro de 2015

O ócio e o negócio


Pensamento e ócio são indissociáveis.  O desenvolvimento do pensar só é possível a partir da reflexão, e reflexão só existe com tempo livre. Ócio é lazer, descanso, passeio, mas principalmente pensar. Já o negócio é o não-ócio, a negação do ócio. Podemos encarar que o negócio sem o ócio não é nada produtivo, não é preciso muito conhecimento para saber que agir sem pensar não é uma boa ideia.

Para Platão, o ócio era o principio da Filosofia, em conexão com a Verdade (Verdade com V maiúsculo mesmo) e a liberdade, porque só pode-se dedicar a Filosofia quem tem tempo para isso. Aristóteles definiu o confronto entre ócio e negócio assim: “Somos ativos a fim de ter ócio”, daí a felicidade que todos os trabalhadores e trabalhadoras têm ao receberem um aviso de férias.

Insistem que o conhecimento já não é produzido do ócio, e sim do processo produtivo. Assim, nossa relação com a natureza mudou, queremos dominá-la, explorá-la, adaptá-la às nossas necessidades, já o ócio pretende contemplá-la.

Hoje, o ócio simplesmente não tem espaço. E até a breve alegria de 30 dias anuais dos trabalhadores, isso para os que não vendem parte das férias, se tornou um negócio, milionário por sinal. A industria do turismo não deixa que nosso ócio seja só ócio. A humanidade conseguiu o improvável, industrializar o ócio.

Mas não devemos encarar a necessidade de ócio como se ele fosse alcançado somente nas férias, ou finais de semanas, quanto na realidade, diariamente o tempo livre deve ser alcançado, tempo para pensar em problemas do trabalho, em contextos, em situações.  Sem ócio, nos tornamos meros repetidores. Talvez nós já sejamos apenas uma cópia, de uma cópia, de uma cópia, de uma cópia ... 

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Je Suis Périphérie



A história de três mortes brutais. Eduardo Campos, candidato à Presidência da República, sofre um acidente de avião e tem sua vida interrompida. Um atentando em Paris executou friamente cartunistas da revista francesa Charlie Hebdo. E a alguns meses, numa ação muito pouco justificada, a Polícia Militar da Bahia matou 15 jovens negros, que, ao que tudo indica, foram torturados, humilhados, quando já rendidos. Três episódios, mas somente dois causaram comoção coletiva.

Racismo, pobrefobia, idolatria do Norte Global e produção social da indiferença são algumas das razões que explicam a desigualdade afetiva diante da morte. Durante o atentando em Paris, o tema da comoção seletiva foi bastante discutido. Por que, afinal de contas, algumas mortes comovem mais do que outras? Sobre a questão da identificação durante a cobertura da morte de Campos. Havia um sentimento forjado de proximidade. Ele tinha aparecido em rede nacional no dia anterior. Imaginávamos que podia ser nós naquele avião. E, claro, era jovem, branco e de olhos claros. No Charlie Hebdo foi diferente, já que em casos de terrorismo contra países desenvolvidos a mídia internacional ajuda na “espetacularização”. Junto a isso, as elites intelectuais brasileiras contribuíram para a comoção: incorporaram a hashtag, mandaram fotos da marcha de Paris e, claro, mostravam suas ligações com a revista e com a França. Não há absolutamente nada de errado com nenhuma dessas atitudes. Eu me horrorizei com ambas as mortes e me solidarizei profundamente com as vítimas. Só que, se a comoção seletiva da morte é construída por meio da identificação, apenas não acho palavras para justificar o silêncio perturbador e a indiferença em relação aos 15 meninos negros, pobres e rendidos. Não nos identificamos também com essas pessoas? Por quê?

A dor e o amor são sentimentos socialmente construídos. Isso significa dizer que a cultura influencia nossos padrões afetivos. Mas mais do que cair numa explicação vulgar culturalista, é importante situar esse conceito dentro de uma perspectiva da hegemonia de Gramsci, em que a cultura é tecida entre valores e interesses dominantes do establishment. A nossa comoção por uns e não por outros é, portanto, um fato ideológico e reflete – para nós brasileiros – uma dominação que é contra nós mesmos: ela reage a um imaginário branco que nega o fato elementar de que somos uma sociedade predominante negra. Matamos a nossa própria singularidade.

Se todo o silêncio sobre esse genocídio se justifica “porque, afinal, isso é triste, mas ocorre todos os dias”, então, eu preciso dizer, sem medir minhas palavras, que isso é um ato de canalhice intelectual. Somos, então, uma máquina concomitantemente passiva e ativa da biopolítica estatal. Passiva porque deixamos o Estado gerenciar as vidas humanas que valem mais, mas somos ativos com nossa indiferença à violência estrutural e ao sofrimento social: ao nos indignarmos com um tipo de morte e ignorarmos outro tipo, somos parte da “governamentalidade” que “deixa morrer” – como diria Foucault. Fazemos uma escolha do tipo de morte que vale sofrer e, portanto, dizemos o tipo de vida que merece existir.

Dando continuidade ao conceito de política da vida de Michel Foucault, a política da morte. Ele versa sobre a vida nua daquele que nasce em um grupo cuja existência não conta como vida e é, portanto, destituído de direitos. Os 15 jovens negros da periferia são atualização desse homo sacer: corpos nus, violentados, excluídos da lei. Eles são amostras de um permanente Estado de Exceção, que suspende a lei e pratica a morte em massa. O Estado brasileiro hoje, enquanto estrutura (e não enquanto um governo, um partido ou um ator social em particular), adota a política da morte. E isso é legitimado socialmente – quando não desejado conscientemente – já que a cultura produtora de emoções é um produto ideológico. Basta ver as reações – ou melhor, a não reação – às declarações do governador da Bahia que disse que o fuzilamento era como um artilheiro diante do gol.

A não-tomada de posição é uma tomada de posição. Somos parte do establishment e conveniente com modo operante assassino que perpetua no Brasil. Julgamos aqueles que, de forma mais consciente, dizem que bandido bom é bandido morto, mas é exatamente isso que permitimos quando ignoramos a morte desses jovens. Qual a dimensão da indignação nas suas redes sociais pelo o que ocorreu? Nenhuma! Talvez vocês nem se lembrem disso. Reproduzimos a indiferença social sobre essas “vidas nuas”: as populações vulneráveis indígenas, negras, homossexuais e pobres. Choramos a morte de artistas franceses – e justificamos que há um crime maior em jogo: a liberdade de expressão. Concordo. Eu apenas penso que, por de trás daqueles meninos executados sem qualquer justificativa plausível, também temos algo maior em jogo: a construção de uma sociedade livre, democrática, justa, diversa, em que todos os corpos valham a mesma coisa.



Mais trágico do que a estupidez da morte, somente a miséria humana de nossa indiferença.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Somos milhões de Cunhas

Penso que há bons anos não via uma frase sintetizar tão bem o estágio político e civilizacional de boa parte da sociedade brasileira. A faixa estendida durante uma das últimas manifestações contra o governo, mirando alvo esquerdista – mais especificamente os governos do ex-presidente Lula, da atual presidente e o Partido dos Trabalhadores – foi de uma precisão mais que cirúrgica, e porque não dizer profética, sobre as entranhas de um país que, desde a sua colonização, continua a se revelar perverso, covarde e hipócrita. Atirou no que viu e acertou no que não viu. A cordialidade brasileira é um mito para inglês ver.


E não adianta alguém dizer que estou generalizando, que é um exagero, porque é exatamente isto o que estou fazendo: generalizando. Chega de bom mocismo, hipocrisia e do jogo do faz de conta. O vandalismo e as frases excretadas em folhetos atirados no funeral de ex-presidente da Petrobrás José Eduardo Dutra há poucos dias não me deixam mentir.

Saímos das margens da ditadura de fato para nadarmos até a outra margem, a da democracia consentida, feita de uma justiça mais do que cega e de discursos ocos de justiça social. De análises feitas em cima da perna e de uma inacreditável esperança de “união do país” pela democracia, dos lugares comuns como “o Brasil é maior que a crise que enfrenta” e coisas do gênero.

Somos uma mistura de cidadãos como o “Burunga” e um pouco como o Admir, fiscal da prefeitura. Querem ver?

01 – Burunga, cujo nome verdadeiro ninguém sabia ao certo, era exímio pescador. Tão exímio que, na sua última proeza, conseguiu esconder numa velha garagem um Nissan Sentra, ano 2014, sem que os vizinhos dessem por isso. Esperou três meses para tirar o carro da garagem, tendo tomado o cuidado de trocar-lhe as placas. Por experiência própria e até por discretos contatos em delegacias de bairros sabia ser três meses o tempo mais do que suficiente para o dono do veículo surrupiado receber o dinheiro do seguro.No dia de estrear o novo carrão, Burunga acordou cedo, engoliu o café às pressas e foi até a papelaria comprar o adesivo especial que escolhera para colocar no vidro traseiro do carro. Aí pelas dez e meia da matina, com o coração palpitando, ligou a máquina, abriu a porta da garagem com cuidado e saiu sem muito estardalhaço de casa. No vidro de trás o adesivo vistoso refletia a confiança e a fé de seu novo dono: PRESENTE DE DEUS.

02 – Tão logo se aposentou, o “seu” Jairo, com a ajuda da mulher Tânia, montou a sonhada lojinha de doces e salgados, onde a máquina de fazer café, novinha em folha, era o orgulho dos donos. Inaugurada a lojinha, a freguesia foi aparecendo, inclusive o fiscal da prefeitura, de nome Admir, há trinta anos como fiscal, servindo a vários partidos de diferentes prefeitos. Passou para ver “se estava tudo em ordem”. E estava. Para não perder a viagem, o tal Ernesto, pediu uma “contribuição” para a inspeção feita, no que foi logo contestado pelo dono. Com jeito o fiscal encontrou logo a maneira delicada de dizer que, se não recebesse a contribuição, viria alguém para aplicar uma multa ao estabelecimento. “Nós, os fiscais, somos uma família há muitos anos e dessa o senhor não escapa”, sentenciou. E saiu porta afora. Dona Tânia, que ouvira a conversa, sentou-se ao lado do marido e desabafou: “é isso aí, só podia ser com um prefeito do PT… Tudo ladrão”.

Perceberam, não, irmãos? Que tal orar num templo de seiscentos milhões de reais, ou até em outro mais simples, bater no peito e levantar as mãos para os céus? Apontar o dedo para a corrupção alheia e fazer aquela carinha “de não tenho nada a ver com isso”. Ou de “Deus ajuda a quem cedo madruga”. Como alguns milhões de outros brasileiros que se têm na conta de bem informados, Burunga, “seu” Jairo e dona Tâina, adoram a novela das oito e o Jornal Nacional. O Faustão, o Fantástico, o BBB… Mas vamos adiante.

03 – A senadora Marta Suplicy, descontente com o rumo tomado pelo Partido dos Trabalhadores ingressa no PMDB e em solenidade no Congresso, ao lado dos presidentes das duas casas legislativas, ambos do PMDB, afirma que irá combater firmemente a corrupção no país. Nada como a coerência, a abnegação e a convicção ideológica da maioria dos nossos representantes no Congresso Nacional.

04 – Jurandir, que graças ao hábito de só ir para a cama por volta das três da madruga depois de umas latinhas de cerveja, ganhara o carinhoso apelido de “vigilante noturno”. Considerava Fernandão seu melhor amigo, desde que este lhe proporcionara ir trabalhar como free-lance numa produtora de filmes publicitários. Fernandão era um entre vários produtores da Cosmopolitan Filmes e Vídeos Ltda., encarregado, entre outras tarefas, de conseguir locais para filmagens e contratação de modelos. Várias vezes fora aconselhado a abrir sua própria firma para dar notas fiscais de seus cachês. Teimoso, Jurandir disse que comprava suas notas e não queria complicações com contadores. Resolvia tudo o mais rápido possível. Como muitos à sua volta o Fernandão gostava de dizer: “pagar imposto para que? Não ganho nada com isso e os políticos é que metem a mão na grana…”.

A senhora Marta Suplicy, veterana política e sexóloga paulista, e o Fernandão sabem onde metem os bedelhos, com certeza. Sempre ao lado do bem, a senadora não iria trocar de partido se não soubesse que a troca continuaria a lhe granjear louvores pelos seus esforços contra a corrupção, os chamados desvios do seu antigo partido. Afinal, nem todo dinheiro enviado para a Suíça poderá ser considerado um dinheiro “sujo”. Sob “certos aspectos”, grande parte da elite econômica brasileira já introjetou na sociedade, através de seus principais porta-vozes na imprensa, e isso desde o final do império pelo menos, que existe uma “corrupção do bem” e uma “corrupção do mal”. E, portanto, transferir conceitos para frases como “bandido bom é bandido morto” para “petista bom é petista morto” é apenas uma questão de tempo. Impressiona, o silêncio do Ministério da Justiça.

Natural que se construísse também no país uma “justiça para o bem” e outra “justiça para o mal”. Justiça para o bem é aquela que solta ‘habeas corpus’ em 48 horas para meliantes de gravata Hermés, que deixa nas gavetas do judiciário alguns processos que irão prescrever num prazo previsto e favorecerão construtores de aeroportos em causa própria, mas com dinheiro público. Justiça que partidariza a própria justiça e, nos últimos anos, transformou o STF num anfiteatro de peças e shows, alguns deles impróprios a menores de idade, deixando de lado a discrição com a qual devem se comportar os mais altos magistrados da nação. Já não tão altos assim, é verdade… Justiça para o bem é essa que tem a qualidade moral do governador de São Paulo que torna secretos por 25 anos os documentos do ‘metrolão’ paulista. Documentos secretos de uma obra pública? Estranho, não?

Justiça para o mal é aquela que vê – além de negros, pobres, nordestinos e algumas minorias – comunistas e petistas para todos os lados. Ou bolivarianos, como gostam de dizer alguns que não entendem nada de bolivarianismo. Justiça para o mal é aquela que permite a um delegado da PF (não confundir com Prato Feito) abrir processo contra uma faxineira que comeu um de seus bombons sem autorização. É aquela justiça que prende petistas por “ouvir dizer”, julga-os e os condena mesmo sem provas, mas não investiga bandidos com contas secretas na Suíça, por exemplo.  Ou o Banestado, ou Furnas, ou a Privataria, ou, ou, ou… Que não vê nada de mais em juízes relatarem e julgarem processos em que têm interesses pessoais em jogo.

E assim caminha o Brasil nesse já quase final do ano de 2015. Entre a irresponsabilidade política da direita, esse ajuntamento de intolerantes que resolveu achincalhar com a constituição do país em nome de uma democracia que ninguém sabe qual é, e a inabilidade da esquerda, até o momento, para enfrentar essa intolerância e os desatinos que se cometem diariamente. Desatinos de um moralismo que nada mais faz do que tentar esconder os dejetos mal cheirosos da desigualdade social que já dura entre nós há mais de quinhentos anos.


É verdade: somos milhões de Cunhas. Pena que a maioria de nós não tenha contas na Suíça ou outros paraísos fiscais, não é mesmo?
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